sábado, 21 de abril de 2018

Interação mutualística entre sapos e búfalos


Recente publicação da Acta Herpetologica, da Firenze University, Itália, relata uma possível interação mutualística entre sapos e búfalos.

As pesquisas foram conduzidas por dois pesquisadores polonês, Piotr Zduniak (Adam Mickiewicz University) e Piotr Tryjanowski (Poznań University of Life Sciences), e um turco, Kiraz Erciyas-Yavuz (Ondokuz Mayis University), que observaram no Delta Kızılırmak (Norte da Turquia), a associação entre a rã-verde Pelophylax ridibundus (Pallas, 1771) e o búfalo-asiático Bubalus bubalis (Linnaeus, 1758) na Turquia, onde a primeira utiliza o corpo do segundo para o forrageio de moscas.


A associação entre a rã-verde Pelophylax ridibundus e o búfalo-asiático Bubalus bubalis na Turquia.
Para maiores informações, consultar o artigo:


Zduniak, P.; Erciyas-Yavuz, K.; Tryjanowski, P.  A possible mutualistic interaction between vertebrates: frogs use water buffaloes as a foraging place. Acta Herpetologica, v. 12, n. 1, p. 113-116, 2017. https://doi.org/10.13128/Acta_Herpetol-20574


sexta-feira, 20 de abril de 2018

O que é a 'Vida'?

Novo conceito de vida pode dar fim a celeuma sobre os vírus.
Novo artigo científico de Filosofia Biológica propõe uma nova definição para a vida como qualquer sistema que possui ou pode criar um elevado grau de capacidade de adaptação", onde cabem os vírus, e viróides.

Esta nova proposta enfatiza que a Biologia atual não aceita esta característica única, bloqueando as tentativas de chegar a um consenso sobre o significado de "vida". Portanto, embora os três relatos clássicos (termodinâmicos, metabólicos e evolutivos) não ofereçam uma definição completa, seus defensores não percebem que compartilham a mesma visão da característica distintiva funcional da vida: a sua capacidade excepcionalmente rica de adaptação.
 
Mais informações no artigo:

Smith, K. C. Life as adaptive capacity: Bringing new life to an old debate. Biological Theory, v. 13, n. 2, p. 76-92, 2018. https://doi.org/10.1007/s13752-017-0292-4
 
 
 

sábado, 27 de janeiro de 2018

Nada em Biologia faz sentido exceto à luz da evolução - A Carta de Dobzhansky

Nascido em 1900, Dobzhansky foi um dos geneticistas mais renomados de seu século. Cristão e evolucionista, nasceu na Rússia, graduou-se pela Universidade de Kiev e lecionou (com J. Philipchenko) na Universidade de Leningrado antes de, em 1927, ir para os Estados Unidos; logo após lecionou na Universidade Columbia e no Instituto de Tecnologia da California (Caltech) antes de se juntar à Universidade Rockefeller, em 1962. Dobzhansky foi presidente da Genetics Society of America, da American Society of Naturalists, da Society for Study of Evolution, da American Society of Zoologists, e da American Teilhard de Chardin Association. Entre suas honras estão a National Medal of Science (1964) e a Gold Medal Award for Distinguished Achievement in Science (1969). Ele obteve 18 doutorados honoris causa de universidades dos EUA e do exterior. Dentre suas mais bem conhecidas obras estão The Biological Basis of Human Freedom (1956) e Mankind Evolving (1963). Morreu de insuficiência cardíaca em 1975.


Recentemente, em 1966, o xeique Abd el Aziz bin Baz solicitou ao rei da Arábia Saudita para que suprimisse uma heresia que estava se espalhando em sua terra. Escreveu o xeique:

"O Sagrado Corão, os ensinamentos do Profeta, a maioria dos cientistas islâmicos e os fatos atuais, todos provam que o Sol orbita a Terra [...] e que a Terra está fixa e estável, posta ali por Deus para o deleite do homem [...] Qualquer um que professasse o contrário proferiria uma acusação de falsidade contra Deus, o Corão e o Profeta."

O bom xeique evidentemente assegura que a teoria Copernicana é "uma mera teoria", não um "fato". Nisso ele está tecnicamente correto. Uma teoria pode ser verificada por uma quantidade massiva de fatos, mas isso a torna uma teoria comprovada, não um fato. O xeique talvez não soubesse que a Era Espacial havia começado bem antes de ele ter solicitado o rei para que suprimisse a heresia Copernicana. A esfericidade da Terra havia sido constatada pelos astronautas, e até mesmo por muitas pessoas da superfície terrestre através da tela de seus aparelhos de televisão. Talvez o xeique pudesse replicar que aqueles que se aventuram para além do confinamento da Terra de Deus sofrem alucinações, e que a Terra seja realmente plana.

Partes do modelo de mundo Copernicano, como a asserção de que a Terra orbita o Sol e não o contrário, não foram verificadas por observações diretas como foi a esfericidade da Terra. Ainda assim os cientistas aceitam o modelo como uma representação acurada da realidade. Por quê? Porque faz sentido graças à esmagadora quantidade de fatos que, vistos por outro lado, não têm significado ou são extravagantes. Para os não-especialistas, muitos desses fatos não são familiares. Por que então nós aceitamos a “mera teoria” de que a Terra é uma esfera que gira ao redor de um Sol esférico? Estaríamos nós simplesmente nos submetendo à autoridade? Não exatamente: sabemos que aqueles que estudaram a evidencia a acharam convincente.

O xeique é provavelmente ignorante sobre tal evidência. E o que é mais provável é que ele está tão irremediavelmente convencido do contrário que nenhuma quantidade de evidência o impressionaria. De qualquer forma, seria pura perda de tempo tentar convencê-lo. O Corão e a Bíblia não contradizem Copérnico, e nem Copérnico os contradiz. É um absurdo tomar a Bíblia e o Corão por apostilas de ciências naturais. Eles tratam de assuntos ainda mais importantes: o sentido do homem e suas relações com Deus. Eles são escritos em linguagem poética e simbólica, e eram compreensíveis às pessoas da época em que foram escritos, bem como o são para as pessoas de todas as outras épocas. O rei da Arábia não cumpriu com a exigência do xeique. Ele sabia que algumas pessoas temem o esclarecimento, porque o esclarecimento ameaça seus escusos interesses. A educação não deve ser usada para promover o obscurantismo.

A Terra não é o centro do universo, apesar de que talvez seja seu centro espiritual. Ela é uma mera partícula de poeira no espaço cósmico. Ao contrário dos cálculos do Bispo Ussher, o mundo não veio a existir do modo que existe hoje por volta de 4004 a.C. As estimativas da idade do universo dadas pelos cosmólogos modernos ainda são aproximações grosseiras, que são revisadas (geralmente para mais) conforme os métodos estimativos são aperfeiçoados. Alguns cosmólogos dão 10 bilhões de anos, outros supõem que o universo sempre existiu e continuará a existir eternamente[1]. A origem da vida na Terra é datada provisoriamente entre 3 e 5 bilhões de anos atrás; seres parecidos com o homem apareceram relativamente há pouco tempo, entre 2 e 4 milhões de anos. A estimativa da idade da Terra, da duração da era geológica e paleontológica, e a antiguidade dos ancestrais humanos são hoje baseadas principalmente na evidência radiométrica - as proporções de isótopos de certo elemento químico em rochas adequadas para tais estudos.

O xeique bin Baz e seus semelhantes recusam-se a aceitar a evidência radiométrica porque é “mera teoria.” Qual é a alternativa? Alguém poderia supor que o Criador achou proveitoso brincar com geólogos e biólogos. Ele cuidadosamente dispôs várias rochas com taxas de decaimento radioativo de 2 bilhões de anos, outras em 2 milhões, justamente para que nos enganássemos enquanto, na verdade, elas têm somente 6 mil anos de idade. Esse tipo de pseudo-explicação não é tão nova assim. Um dos primeiros antievolucionistas[2], P. H. Gosse, publicou um livro chamado Omphalos ("O Umbigo"). A essência deste estupendo livro é tal que, de acordo com ele, Adão, embora sem mãe, fora criado com umbigo, e que os fósseis só existem porque o Criador, num ato deliberado de Sua parte, os espalhou pelo planeta para que se parecessem muito antigos. É fácil enxergar o tamanho erro de se pensar dessa forma: é blasfemo, porque acusa-se Deus de cometer enganos absurdos. Isso é tão revoltante quanto desnecessário.

A diversidade dos seres vivos
A diversidade e a unidade da vida são aspectos igualmente surpreendentes e significativos do mundo natural. Foram descritos e estudados entre 1,5 a 2 milhões de espécies de animais e plantas, e o número de espécies ainda não descobertas é provavelmente tão grande quanto. A diversidade de tamanhos, formas e modos de vida é estonteante e fascinante. Aqui vão alguns exemplos: a doença de mão-pé-boca é causada por um vírus que mede 8-12 micrômetros de diâmetro, a baleia azul atinge 30 metros de comprimento e pesa 135 toneladas, os vírus mais simples são parasitas em células de outros organismos - reduzidos a quantidades essenciais mínimas de DNA ou RNA, que subvertem a maquinaria bioquímica das células do hospedeiro para replicar sua própria informação genética em vez daquela do hospedeiro.

É uma questão de opinião, ou de definição, se os vírus são considerados seres vivos ou substâncias químicas peculiares. O fato é que a diferença de opinião existente é em si mesma altamente significante. Significa que a fronteira entre o vivo e a matéria inanimada está obliterada. Na outra ponta do espectro simplicidade-complexidade temos os animais vertebrados, incluindo o homem. O cérebro humano contém 12 bilhões de neurônios[3], e as sinapses dentre eles são talvez mil vezes mais numerosas.

Alguns organismos vivem em uma grande variedade de ambientes. A esse respeito, o homem está no topo da escala. Ele não só é uma espécie verdadeiramente cosmopolita como também pode, devido às suas próprias conquistas tecnológicas, sobreviver por tempo limitado na superfície da Lua e no espaço cósmico. Em contrapartida, alguns organismos são incrivelmente especializados. Talvez o nicho ecológico mais limitado de todos seja o de uma espécie de fungos da família Laboulbeniaceae, o qual cresce exclusivamente na porção traseira do élitro da abelha Aphenops cronei, achada somente em algumas cavernas de calcário do sul da França. As larvas da mosca Psilopa petrolei se desenvolvem em infiltrações de petróleo bruto nos campos petrolíferos da Califórnia; ao que se sabe, isso não ocorre em nenhum outro lugar. Esse é o único inseto capaz de viver e se alimentar em petróleo, e seu espécime adulto pode andar em sua superfície desde que nenhuma outra parte exceto os tarsos estejam em contato com a substância. Larvas da mosca Drosophila carcinophila se desenvolvem somente nas cavidades nefríticas que ficam sob as abas do terceiro maxilípede do caranguejo terrestre Geocarcinus ruricola, que é restrito a certas ilhas do Caribe.

Existe alguma explicação que torne a razão dessa colossal diversidade de seres vivos inteligível? De onde vieram estas extraordinárias, aparentemente caprichosas e supérfluas criaturas como o fungo Laboulbenia, a abelha Aphenops cronei, as moscas Psilopa petrolei, a Drosophila carcinophila e tantas outras curiosidades biológicas? A única explicação que faz sentido é que a diversidade orgânica evoluiu em resposta à diversidade de ambientes no planeta Terra. Nem uma única espécie, seja ela perfeita ou versátil, poderia explorar todas as oportunidades para se viver. Cada uma das milhões de espécies tem seu próprio modo de viver e obter sustento do ambiente. Existem sem dúvida muitos outros modos possíveis de viver ainda não explorados por qualquer espécie existente; mas uma coisa é certa: com menos diversidade, algumas oportunidades de vida permaneceriam inexploradas[4]. O processo evolucionário tende a preencher os nichos ecológicos disponíveis. E não é conscientemente ou deliberadamente, as relações entre evolução e ambiente são mais sutis e mais interessantes do que isso. O ambiente não impõe mudanças evolutivas em seus habitantes, como postulado pelas agora já abandonadas teorias neolamarckistas. O melhor meio para visualizar a situação consiste no seguinte: o ambiente apresenta desafios às espécies, estas que podem responder por mudanças genéticas adaptativas.

Um nicho ecológico não ocupado, uma oportunidade de vida ainda inexplorada, é um desafio. Também o é uma mudança ambiental, como o clima da Era do Gelo dando lugar a um clima mais quente. A seleção natural pode fazer com que uma espécie responda ao desafio através de mudanças genéticas adaptativas. Essas mudanças podem possibilitar que as espécies ocupem um nicho ecológico anteriormente vazio como uma nova oportunidade para a vida, ou que elas resistam à mudança climática se esta lhes for desfavorável. Mas essa resposta pode ou não ser bem sucedida. Isso depende de muitos fatores, sendo o principal deles a composição genética da espécie que está respondendo ao desafio no momento em que a resposta é solicitada pelo ambiente. A falta de resposta bem sucedida pode causar a extinção da espécie. A evidência fóssil mostra claramente que o fim eventual da maioria das linhagens evolucionárias é a extinção. Organismos que vivem hoje são descendentes bem sucedidos de somente uma minoria de espécies que viveram no passado - e de minorias ainda menos populosas quanto mais no passado se volta. No entanto, o número de espécies existentes hoje não diminuiu; na verdade, provavelmente aumentou ainda mais com o tempo. Tudo isso é compreensível à luz da teoria da evolução; mas que trabalho sem sentido teria sido, da parte de Deus, criar uma infinidade de espécies ex nihilo [“do nada”] e então deixar a maioria delas para morrer!

Não há, obviamente, nada intencional ou consciente na ação da seleção natural. Uma espécie não diz a si mesma, “Deixe-me tentar amanhã (ou daqui a um milhão de anos) crescer em um tipo diferente de solo, ou me alimentar de outra forma, ou habitar uma outra parte do corpo de um caranguejo diferente.” Somente um ser humano poderia tomar decisões tão conscientes. Essa é a razão da espécie Homo sapiens ser o ápice da evolução biológica[5]. A seleção natural é, ao mesmo tempo, um processo cego e criativo. Somente um processo criativo e cego poderia produzir, por um lado, o tremendo sucesso biológico que é a espécie humana e, por outro lado, formas de adaptação tão limitadas e restritas como os superespecializados fungos, a abelha e as moscas mencionadas acima.

Os antievolucionistas falham em entender como a seleção natural opera. Eles imaginam que todas as espécies existentes foram criadas por ordem divina há somente alguns milhares de anos, da mesma forma que são hoje. Mas qual o sentido de haver mais de 2 ou 3 milhões de espécies vivendo na Terra? Se a seleção natural é o desencadeador primário da evolução, qualquer quantidade de espécies se torna compreensível: a seleção natural não funciona de acordo com planos preordenados, e as espécies são produzidas não por causa de uma necessidade prévia que vise suprir algum propósito, mas simplesmente por causa da existência de oportunidades ambientais e recursos genéticos. O Criador estava de bom humor quando fez a Psilopa petrolei para os campos de petróleo da Califórnia e as espécies de Drosophila exclusivamente para o corpo de certos caranguejos terrestres que vivem em certas ilhas do Caribe? A diversidade orgânica se torna razoável e compreensível se, no entanto, o Criador criou a vida não por capricho, mas pela evolução por seleção natural. É errado afirmar que criação e evolução são alternativas mutuamente exclusivas. Eu sou um criacionista e um evolucionista. Evolução é o método de criação de Deus, ou da Natureza. A Criação não é um evento que aconteceu em 4004 a.C.; é um processo contínuo que começou por volta de 10 bilhões de anos e ainda está em curso.

Unidade da vida
A unidade da vida não é menos extraordinária do que sua diversidade. A maioria das formas de vida é similar de muitas maneiras. As similaridades biológicas universais são particularmente impressionantes em seu aspecto bioquímico: dos vírus ao homem, a hereditariedade é codificada em apenas duas aparentadas substâncias químicas, o DNA e o RNA. O que o código genético tem de simples, tem de universal. Existem apenas quatro “letras” genéticas no DNA: adenina, guanina, timina e citosina. A uracila substitui a timina no RNA. Todo o desenvolvimento evolucionário do mundo natural se deu não pela invenção de novas “letras” no “alfabeto” genético, mas pela elaboração de contínuas novas combinações dessas letras.

Não somente o código genético do DNA-RNA é universal, também o é o método de tradução das sequências das “letras” no DNA-RNA em sequências de aminoácidos e, estes, em proteínas. Os mesmos 20 aminoácidos compõem incontáveis proteínas diferentes em todos, ou pelo menos na maioria dos seres vivos. Diferentes aminoácidos são codificados por um a seis tripletos de nucleotídeos no DNA e RNA. E a biomecânica universal se estende para além do código genético e sua tradução em proteínas: uniformidades marcantes (como adenosina trifosfato, biotina, riboflavina, hemes, piridoxina, vitamina K, B12 e ácidos fólicos) implementam processos metabólicos e prevalecem no metabolismo celular dos mais diversos seres vivos.

O que toda essa universalidade biológica ou bioquímica significa? Ela sugere que a vida surgiu de matéria inanimada somente uma única vez, e que todos os seres vivos, não importa o quão diversos em outros aspectos, conservam as funcionalidades básicas da vida primordial. (Também é possível que tenha havido várias, senão numerosas origens da vida; se for esse o caso, a progenitura de somente uma delas sobreviveu e herdou a Terra). Mas e se não houvesse evolução e cada uma das milhões de espécies tivesse sido criada separadamente? Por mais ofensiva que tal noção possa soar ao sentimento religioso e à razão, os antievolucionistas, dessa forma, acabam por tornar a acusar o Criador de estar trapaceando. Assim, eles insistem que Ele deliberadamente dispôs as coisas exatamente como se seu método de criação fosse a evolução, de modo a induzir intencionalmente os sinceros buscadores da verdade ao engano.
Os notáveis e recentes avanços da biologia molecular tornaram possível compreender de que modo diversos seres vivos são construídos por materiais tão monotonamente similares: as proteínas são compostas de somente 20 tipos de aminoácidos e codificadas somente por DNA e RNA, cada um contendo unicamente quatro tipos de nucleotídeos. O método é surpreendentemente simples. Todas as palavras do idioma inglês, todas as sentenças, capítulos e livros, são compostos de sequências de 26 letras do alfabeto (e também podem ser representadas por somente três sinais do código Morse: ponto, traço e espaço). O significado de uma palavra ou uma sentença não é definido somente por quais letras ela contém, mas pela sequência dessas letras. É o mesmo com a hereditariedade: ela é codificada pelas sequências das “letras” do alfabeto genético - os nucleotídeos -, que compõem as bases do DNA. Tais letras são traduzidas nas sequências de aminoácidos que compõem as proteínas.

Estudos moleculares tornaram possível análises mais exatas dos graus de similaridades e diferenças bioquímicas entre os seres vivos. Alguns tipos de enzimas e outras proteínas são quase universais, ou ao menos bem difundidas no mundo natural. Elas possuem funcionalidades similares em diferentes seres vivos, nos quais catalisam reações químicas semelhantes. Mas quando essas proteínas são isoladas e têm sua estrutura determinada quimicamente, frequentemente se encontra sequências de aminoácidos mais ou menos desiguais em organismos diferentes. Por exemplo, as assim chamadas cadeias alfa de hemoglobina têm sequências idênticas de aminoácidos tanto no homem quanto no chimpanzé, mas diferem num simples aminoácido (de 141) no gorila. Já no gado, no cavalo, no jumento, no coelho e no peixe carpa, as cadeias alfa diferem das nossas em, respectivamente, 17, 18, 20, 25 e 71 aminoácidos.

O citocromo C é uma enzima que tem um papel importante no metabolismo das células aeróbicas. Ela é encontrada nos mais diversos seres vivos, do homem ao bolor. E. Margoliash, W. M. Fitch e outros cientistas compararam os aminoácidos no citocromo C de diferentes ramos da árvore da vida e a maioria das semelhanças significantes, bem como diferenças, foram reveladas. O citocromo C de diferentes ordens de mamíferos e aves diferem de 2 a 17 aminoácidos, de 7 a 38 entre classes de vertebrados, de 23 a 41 entre vertebrados e insetos e de 57 a 72 entre animais e leveduras e bolores. Fitch e Margoliash preferem chamar seus achados de “distâncias mutacionais mínimas.” Mencionei acima que diferentes aminoácidos são codificados por diferentes tripletos de nucleotídeos no genoma. Esta codificação é agora bem conhecida. A maioria das mutações envolve substituições de nucleotídeos individuais em partes da fita de DNA que codificam para uma dada proteína. Portanto, pode-se calcular o número mínimo de mutações únicas necessárias que fazem com que se altere o citocromo C de um ser vivo no de outro. A seguir, as distâncias mutacionais mínimas entre o citocromo C humano e o citocromo C de outros seres vivos:

 

É importante notar que as sequências de aminoácidos em um dado tipo de proteína variam dentro de populações de uma mesma espécie bem como de espécie para espécie. É evidente que diferenças entre proteínas nos níveis de espécie, gênero, família, ordem, classe e filo são compostas de elementos que variam também entre indivíduos de uma mesma espécie. Diferenças individuais e grupais são diferenças apenas quantitativas, e não qualitativas.

Evidências que apoiem as proposições acima são amplas e as que mais crescem. Muito trabalho está sendo feito recentemente sobre as variações individuais nas sequências de aminoácidos das hemoglobinas do sangue humano. Mais de 100 variações foram detectadas. A maioria delas envolve substituições de aminoácidos individuais — substituições que surgiram por causa das mutações genéticas nas pessoas (ou em seus ancestrais) em que foram descobertos. Como esperado, algumas dessas mutações são prejudiciais para seus portadores, mas outras aparentemente são neutras ou mesmo favoráveis em certos ambientes. Algumas hemoglobinas mutantes foram encontradas somente em uma pessoa ou em uma família; outras são descobertas repetidamente entre habitantes de diferentes partes do mundo. Torno a dizer que todas esses notáveis achados fazem sentido unicamente à luz da evolução, e que, de contrário, não fazem nenhum sentido.

Anatomia e Embriologia comparada
A bioquímica universal é a descoberta mais impressionante e também a mais atual, mas certamente não é o único vestígio da criação por meio da evolução. A anatomia e embriologia comparada proclama a origem evolucionária dos presentes habitantes do planeta. Em 1555, Pierre Belon chegou à conclusão de que ossos do homem e das aves eram, superficialmente, homólogos. Consequentemente, anatomistas traçaram homologias nos esqueletos, bem como em órgãos, de todos os vertebrados. Homologias também são rastreáveis no exoesqueleto de artrópodes como lagostas, moscas e borboletas, por mais diferentes que pareçam. Exemplos de homologia podem ser multiplicados indefinidamente.
 

Homologia de alguns tipos de vertebrados.






Embriões de diversos animais muitas vezes exibem similaridades admiráveis. Cem anos atrás, tais similaridades deixaram o zoólogo alemão Ernst Haeckel tão entusiasmado que ele chegou a interpretá-las como o embrião repetindo em seu próprio desenvolvimento a história evolutiva da espécie. Para Haeckel, cada estágio do desenvolvimento embriônico recapitulava seus ancestrais mais remotos. Em outras palavras, supôs ele que, estudando o desenvolvimento embriônico, era possível ler os estágios que o desenvolvimento evolucionário havia percorrido. Esta assim chamada lei biogenética não é mais aceita em sua forma original, no entanto, as semelhanças embrionárias são inegavelmente impressionantes e significativas.

Sequência de desenvolvimento embriônico de vertebrados em contexto filogenético. Repare nas similaridades compartilhadas por vários táxons, principalmente os amniota (táxons laranja, vermelho e amarelo). N.T.





A presença de fendas branquiais nas primeiras etapas do desenvolvimento dos embriões humanos e nos embriões de outros vertebrados terrestres é outro exemplo famoso. É claro que em nenhuma etapa do desenvolvimento humano o embrião é um peixe, e isso tão pouco quer dizer que as guelras sejam funcionais. Mas por que, afinal de contas, existem em embriões humanos inconfundíveis fendas branquiais se não evoluímos de ancestrais remotos que respiraram com a ajuda de guelras? O Criador estaria brincando de novo?

Provavelmente todo mundo conhece as cracas sedentárias[6], as quais parecem não ter nenhuma similaridade com a maioria dos crustáceos tanto quanto têm com os copépodes. Quão notável é o desenvolvimento desses cirrípedes quando passam pelo estágio de larva de vida livre, o náuplio! Nesse estágio de desenvolvimento, um cirrípede e um Cyclops [gênero de copépodes] parecem inequivocamente similares. Eles são, evidentemente, parentes.

Radiação adaptativa: moscas do Havaí
Existem por volta de 2.000 espécies de moscas drosófilas no mundo inteiro. Cerca de 1/4 delas vive no Havaí, embora a área total do arquipélago seja do tamanho do Estado de Nova Jersey. Todas, exceto 17 espécies, são endêmicas (não são achadas em nenhum outro lugar). Além do mais, uma grande maioria de moscas endêmicas havaianas não ocorre ao longo do arquipélago: elas estão restritas a ilhas individuais ou mesmo a uma parte de uma ilha. Qual é a explicação para essa extraordinária proliferação de espécies de drosófilas em um território tão pequeno? Um recente trabalho dos cientistas H. L. Carson, H. T. Spieth e D. E. Hardy e outros torna a situação compreensível.

As ilhas havaianas são de origem vulcânica, isso quer dizer que elas nunca foram parte de qualquer continente. Suas idades estão entre 5.6 e 0.7 milhões de anos. Antes da chegada do homem, seus habitantes foram descendentes de espécies imigrantes que foram transportados através do oceano por correntes de ar e outros meios de transporte acidentais. Uma única espécie de drosófila, cuja chegada no Havaí foi a primeira, antes de numerosos competidores, enfrentou o desafio da abundância de muitos nichos ecológicos desocupados. Seus descendentes responderam a esse desafio através da mudança por radiação adaptativa, fator que tem como produto as notáveis espécies de drosófilas havaianas de hoje. Para prevenir um possível mal entendido, deixemos claro que as endêmicas drosófilas havaianas não são de forma alguma tão similares entre si de maneira que pudessem ser confundidas com variações da mesma espécie; contudo, elas são mais diversificadas do que as drosófilas de outros lugares. A maior e a menor espécie de drosófila são ambas havaianas. Elas exibem uma surpreendente variedade de padrões de comportamento. Algumas delas tem se adaptado a modos de vida bastante extraordinários para uma mosca drosófila, tais como ser parasita em casulos de ovos de aranhas.

Fora o Havaí, ilhas oceânicas que estão espalhadas pelo amplo Oceano Pacífico visivelmente não são ricas em espécies endêmicas de Drosophila. A explicação mais provável desse fato é que essas outras ilhas foram colonizadas por drosófilas depois da maioria dos nichos ecológicos já terem sido colonizados. Isso é obviamente uma hipótese, mas é uma hipótese racional. Os antievolucionistas podem talvez sugerir uma hipótese alternativa: num momento de distração, o Criador resolveu fabricar mais e mais espécies de drosófilas para o Havaí, até que houvesse um excesso extravagante delas no arquipélago. Deixo que você decida qual hipótese faz sentido.

Força e aceitação da teoria
Vista à luz da evolução, a Biologia é, talvez, a ciência mais intelectualmente gratificante e inspiradora. Sem essa luz, ela se torna uma pilha de fatos diversos e sem sentido — alguns deles interessantes ou curiosos, mas não fazendo qualquer sentido como um todo.

Isso não implica que nós sabemos tudo o que se pode saber sobre biologia e evolução. Qualquer biólogo competente está ciente da multidão de problemas ainda não resolvidos e questões ainda em aberto. Afinal, a pesquisa biológica não apresenta nenhum sinal de estar chegando ao fim; já o oposto é verdade. Discordâncias e conflitos de opinião entre biólogos são comuns, como deveriam ser numa ciência natural que está em constante crescimento. Antievolucionistas confundem, ou fingem confundir, essas discordâncias como indicações de dubiedade de toda a doutrina da evolução. Seu esporte favorito é misturar citações cuidadosamente e algumas vezes habilmente tirá-las do contexto, de modo a mostrar que nada é verdadeiramente bem estabelecido ou aceito entre evolucionistas. Eu e alguns dos meus colegas já ficamos hilariados e atônitos ao sermos citados como se fóssemos, por baixo dos panos, antievolucionistas.

Deixe-me tentar deixar bem claro o que, em evolução, é estabelecido além de qualquer dúvida razoável e o que precisa de mais estudos. A evolução como um processo vigente na história da Terra só pode ser duvidada por aqueles que são ignorantes sobre a evidência ou que resistem a ela devido a bloqueios emocionais ou ao simples fanatismo. Em contrapartida, os mecanismos propulsores da evolução certamente precisam de estudo e esclarecimento. Não existem alternativas à história evolutiva que possam resistir a um exame crítico. No entanto, estamos constantemente aprendendo novos e importantes fatos sobre os mecanismos evolucionários.

É extraordinário que há mais de um século Darwin foi capaz de compreender tanto sobre evolução sem nem ao menos ter tido à sua disposição os principais fatos descobertos desde então. O desenvolvimento da genética depois do ano 1900 - especialmente da genética molecular nas ultimas duas décadas — forneceu informações essenciais para o entendimento dos mecanismos evolutivos. Mas ainda há muita dúvida e muito para aprender. Isso é animador e inspirador para qualquer cientista que se preze. Imagine que pesadelo seria se já soubéssemos de tudo e não restasse mais nada para ser descoberto pela ciência!

A doutrina da evolução está em conflito com a fé religiosa? Não está. É um grande erro confundir as Sagradas Escrituras com textos elementares de Astronomia, Geologia, Biologia e Antropologia. Somente se símbolos são construídos para significar o que eles não pretendem significar que então aparecem conflitos imaginários e insolúveis. Como dito acima, tal tolice leva à blasfêmia: pois, se assim for, o Criador teria de ser acusado de ter cometido enganos sistemáticos.

Um dos maiores pensadores da nossa época, Pierre Teilhard de Chardin, escreveu o seguinte: "A evolução é uma teoria, um sistema ou uma hipótese? Ela é muito mais do que isso - é um postulado geral do qual decorrem todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas, de modo que, por conseguinte, se tornem satisfatórios a fim de que sejam concebíveis e verdadeiros. A evolução é uma luz que ilumina todos os fatos, uma trajetória tal qual todas as linhas de pensamento devem seguir - isso que é evolução". Claro, alguns cientistas, bem como alguns filósofos e teólogos, discordam de algumas partes dos ensinamentos de Teilhard; a aceitação de sua visão de mundo fica aquém do universal. Mas não há dúvida de que Teilhard foi um homem verdadeiramente e profundamente religioso, e que o cristianismo foi a pedra angular de sua visão de mundo. Além disso, para Teilhard, ciência e fé não estavam segregados a compartimentos à prova d’água, como estão para muitas pessoas. Ciência e fé foram partes harmoniosas de sua visão de mundo. Teilhard foi um criacionista, mas um que entendeu que a Criação, neste mundo, é realizada por meio da evolução.

N. T.:

1. Atualmente, o consenso científico sobre a idade do universo é de que o Big Bang ocorreu entre 13 a 14 bilhões de anos atrás.

2. Os “antievolucionistas”, tão citados por Dobzhansky, são crentes no deus judaico-cristão, i. e., ao contrário de Dobzhsnaky, são cristãos literalistas, que negam a evolução biológica por acreditarem na literalidade do Gênesis bíblico.

3. O consenso atual é de que temos por volta de 86 bilhões de neurônios.

4. Quando Dobzhansky fala sobre modos de viver e similares, faz menção aos meios conhecidos de interação entre organismo e ambiente externo, e, de maneira mais filosófica, a novas e desconhecidas formas de vida provenientes de genes (e/ou mutações) ainda inexistentes por falta de novos ambientes, pressões seletivas ou simplesmente pela ausência de espécies em ambientes ainda inabitados. Em outras palavras, enfatiza-se a impossibilidade de saber sobre todos os modos, meios, formas, tamanhos, jeitos de ser e interagir com o ambiente, pois eles (estes meios, que são originados graças à variabilidade genética e sua interação com o ambiente quando posta em prática) ainda não existem e não podem ser preditos em sua totalidade. Afinal, tais modos (fisiológicos, comportamentais, morfológicos etc.) são literalmente infinitos e por isso nunca serão conhecidos de maneira geral - o que é, para mim, enigmático e espetacular.

5. O “ápice da evolução”, segundo Dobzhansky, é ser capaz de tomar decisões baseadas em razoável premeditação, de formular hipóteses e teorias que busquem compreender a realidade - isso o Homo sapiens domina bem -, e não que, dado o presente estado biológico da raça humana, a evolução não teria mais como prosseguir.
Não existe um ápice ou uma teleologia exata na evolução biológica: as espécies simplesmente se adaptam (ou não) aos desafios do ambiente.

6. Craca é o nome dado a diversos crustáceos da classe dos cirrípedes (Cirripedia).


Leia o texto original:
Dobzhansky, T. Nothing in Biology makes sense except in the light of Evolution. The American Biology Teacher,  v. 35, No. 3, p. 125-129, 1973. 

sábado, 2 de setembro de 2017

Ciências biológicas exclui pesquisadores e só tem mercado para professor? Veja o que é fato na carreira

Profissão possibilita atuação em mais 50 áreas diferentes; carreira foi a sétima com maior número de inscritos no Sisu do ano passado. 

Por Vanessa Fajardo, G1



Guia de Carreiras - Ciências biológicas ou biologia: veja o que é fato na carreira


A profissão que estuda a vida na Terra é bastante ampla. A graduação, dividida em bacharelado e licenciatura, habilita o biólogo a atuar em mais de 50 áreas diferentes, segundo o Conselho Federal de Biologia.

“Em sala de aula sempre brinco que o biólogo não é Deus, mas está em todos os lugares”, diz Rosemeire Aparecida Bom Pessoni, coordenadora do curso de ciências biológicas da Universidade Metodista, no ABC.

Na edição 2016 do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do Ministério da Educação (MEC), a carreira foi a sétima com o maior número de inscritos, ficando atrás de administração, pedagogia, direito, medicina, educação física e enfermagem.

Nos últimos anos, de acordo com o Censo da Educação Superior, o número de formados no cursos de licenciatura é mais do que o dobro dos bacharéis. O dado mais recente, de 2015, aponta que 13.633 concluíram a licenciatura em ciências biológicas, e 5.808 se formaram como bacharéis.

O que é fato na carreira
Alguns mitos rondam a carreira como o estereótipo do biólogo explorador que faz pesquisas de campo desbravando áreas selvagens acompanhado apenas de um canivete. “Houve uma profissionalização do trabalho de campo, embora isso nem sempre seja mostrado na TV. Entrar no mato é sempre uma aventura, mas o biólogo está sempre preparado e acompanhado de equipes multidisciplinares”, afirma Rosemeire.

O G1 selecionou outras cinco dúvidas associadas ao curso e ao mercado para descobrir com especialistas se são condizentes:
  • Curso de ciências biológicas e biologia é a mesma coisa?
  • Não há mercado para a área de pesquisa no Brasil?
  • Para fazer esse curso tem de ser bom em exatas?
  • Quem opta pela carreira precisa necessariamente dar aulas?
  • O grande mercado para os biólogos foi criado com a preocupação em preservar o meio ambiente e as causas ecológicas?
O G1 ouviu os seguintes profissionais e estudantes da área para responder às questões acima:
  • Fabiana André Padilha, bióloga do Aquário de SP
  • Karin Argenti Simon, coordenadora do curso de ciências biológicas do campus Unifesp Diadema
  • Marcelo Szpilman, biólogo do AquaRio
  • Rosemeire Aparecida Bom Pessoni, coordenadora do curso de ciências biológicas da Universidade Metodista, no ABC

Curso de ciências biológicas e biologia é a mesma coisa?

Sim. A confusão ocorre porque a biologia é o termo amplo que descreve a ciência que estuda os seres vivos, segundo Karin Argenti Simon, coordenadora do curso de ciências biológicas do campus Unifesp Diadema. Ainda, segundo ela, o curso de ciências biológicas é a base central que abrange uma série de outras áreas, como biomedicina, engenharia florestal, gestão ambiental, entre outras.


Não há mercado para a área de pesquisa no Brasil?

A professora Karin lembra que a pesquisa científica em todo o país foi afetada pela crise financeira, mas que as universidades públicas concentram o maior polo. Ela diz que a indústria cada vez mais tem interesse e necessidade em contratar biólogos focados em pesquisas de desenvolvimento tecnológico e de produção, assim como nos assuntos relacionados à preservação do ambiente.

Marcelo Szpilman, biólogo do AquaRio, aconselha quem quiser seguir carreira como pesquisador a ir para o exterior. “A verba que existe no Brasil é restrita e um trabalho pode levar anos. Aqui falta visão de que a ciência é importante”, afirma Szpilman.
"Quem quiser se dedicar à pesquisa, deve ir para países como Estados Unidos, Israel, França e Alemanha" - Szpilman


Para fazer esse curso tem de ser bom em exatas?

No geral, os especialistas apontam que é necessário algum domínio. Dependendo da área que o estudante seguir, o entendimento de exatas deve ser maior, como controle de pesca, por exemplo.


Quem opta pela carreira, precisa necessariamente dar aulas?

Não. Este é um mercado de trabalho, mas há muitas outras opções na biologia. Quem quiser ser professor, precisa optar pelo curso de licenciatura que oferece disciplinas e estágios específicos que habilitam o profissional a lecionar. O outro caminho é o bacharelado.


O grande mercado para os biólogos foi criado com a preocupação em preservar o meio ambiente e as causas ecológicas?

Sim, sem dúvida. “Agências de estudo de impacto ambiental, o ecoturismo, ONGs de preservação ambiental e, até mesmo, indústrias que se preocupam com manejo ambiental são oportunidades de trabalho para o biólogo”, explica a professora Karin.

Fabiana André, bióloga do Aquário de SP, lembra que para quem é formado em licenciatura também há opções de trabalho em projetos de educação ambiental, além do ensino formal de ciências. Para ela, a onda da conscientização ecológica é bem-vinda. "Ainda bem que hoje quase todo mundo está engajado nesta questão ambiental porque o planeta está pedindo socorro."

 

 (Foto: Arte/G1)
(Foto: Arte/G1)

Fonte

 

sábado, 17 de junho de 2017

Esquistossomose: Sequenciado genoma de caramujo hospedeiro do parasita causador da doença

Biomphalaria (Carvalho et al 2008)


Um artigo publicado na Nature Communications, uma das mais influentes revistas científicas, apresenta o sequenciamento do genoma do Biomphalaria glabrata, espécie de caramujo que é o principal e mais importante hospedeiro do Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose, doença que afeta 240 milhões de pessoas em todo o mundo. O estudo que deu origem ao artigo envolveu instituições de onze países, entre elas a Fiocruz Minas.

O mapeamento fornece uma descrição completa acerca das características do caramujo, incluindo informações relacionadas à estrutura física do molusco e ainda à forma como ele se comporta. Isso torna possível, por exemplo, entender como funciona os sistemas digestivo, respiratório, reprodutivo, entre outros, além de jogar luz sobre questões comportamentais, que podem explicar a forma de interação entre o Biomphalaria glabrata e o ambiente. Ao todo, foram identificados 14.423 genes.
 
“A partir de agora, será possível melhor entender e compreender a funcionalidade desse molusco e encontrar formas mais eficazes para controlá-lo ou torná-lo, se possível, um molusco resistente à infecção pelo S. mansoni. Talvez possamos entender como o mecanismo de defesa da B. glabrata permitiu que o parasita se adaptasse tão bem a ele”, afirma o pesquisador Omar dos Santos Carvalho, do Grupo de Helmintologia e Malacologia Médica (HMM) da Fiocruz Minas.
 
O estudo, que durou 15 anos, teve início na Fiocruz Minas, com a captura e caracterização dos caramujos, realizadas pelos pesquisadores Omar Carvalho, Roberta Caldeira e José Amorim da Silva. Nos laboratórios da unidade, os caramujos foram submetidos a diferentes experimentos, visando assegurar que a espécie coletada era de fato a B. glabrata.

“Fizemos a identificação morfológica, ou seja, uma análise dos órgãos internos de vários exemplares do caramujo e, para ampliar a confiabilidade, realizamos estudos moleculares para confirmação da identificação da espécie”, explica a pesquisadora Roberta Caldeira, do Grupo de HMM. Segundo ela, os moluscos coletados foram ainda submetidos à infecção com duas cepas de Schistosoma mansoni, já que uma característica relevante da B. glabrata é a alta taxa de infectividade.

Os pesquisadores da Fiocruz também fizeram análise de dados genômicos, proteômicos e transcritômicos, bem como a Identificação de proteínas envolvidas na via de pequenos RNAs . Os resultados dessas metodologias de nomes complicados fornecem informações importantes acerca da biologia do caramujo, bem como da relação entre ele e o hospedeiro. Possibilitam também compreender melhor os mecanismos de suscetibilidade e resistência de B. glabrata ou ainda as condições que a torna mais propensa à infecção.

“O grande diferencial desse estudo é a enorme quantidade de possibilidades que ele gera. Para se ter uma ideia, foram publicados, em forma de suplementos neste artigo da Nature, cerca de outros 50 artigos explorando os dados genômicos gerados por esse projeto”, destaca Caldeira.

O estudo envolveu o trabalho de 118 pesquisadores. Só na Fiocruz Minas e na Universidade Federal de Uberlândia, 16 pessoas estiveram envolvidas: Roberta Caldeira, Omar Carvalho, Liana Passos, Guilherme Oliveira, Juliana Assis, Yesid Cuesta-Astroz, Sandra Gava, Fernanda Ludolf, Francislon Oliveira, Fabiano Pais, Izinara Rosse, Larissa Scholte, Matheus de Souza Gomes, Elio Baba, Laurence Amaral e Wander Jeremias. Dentre esses, Guilherme Oliveira, agora no Instituto Tecnológico Vale em Belém, foi um dos membros do comitê que editou a versão final do artigo.
 
“O sucesso desse trabalho é resultado do esforço de uma equipe internacional. Foi um grande prazer e muito gratificante participar deste grande grupo”, ressalta Omar Carvalho.

Esquistossomose no país. Segundo a responsável técnica pelo Programa de Esquistossomose do Ministério da Saúde, Jeann Marie Marcelino, dados do Inquérito Nacional de Prevalência da Esquistossomose e das Geo-helmintíases mostram que aproximadamente 1,5 milhão de pessoas possam estar infectadas com o Schistosoma mansoni no país. A transmissão ocorre de forma endêmica nos Estados de Alagoas, Bahia, Maranhão, Pernambuco e Sergipe, na região Nordeste, e em Minas Gerais e no Espírito Santo, na região Sudeste. Há registro de focos de transmissão no Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, São Paulo e no Pará.

De acordo com o inquérito, no período de 2001 a 2015, foram detectados cerca de 38 mil casos na área endêmica. Nesse mesmo período, houve uma média de 195 internações e 488 óbitos. Em 2015, foram 193 internações e 459 óbitos.

No restante do país, são notificados casos, em sua maioria importados de áreas endêmicas, devido ao fluxo migratório de pessoas. Em 2015, foram notificados 4.356 casos, incluindo as formas graves da doença.

De acordo com uma publicação do Ministério da Saúde de 2008,  o caramujo da espécie Biomphalaria glabrata está distribuído em 806 municípios, de 16 estados brasileiros (AL, BA, DF, ES, GO, MA, MG, PA, PB, PR, PE, PI, RJ, RN, RS, SP e SE) e no Distrito Federal.

A doença- A esquistossomose é uma doença causada pelo Schistosoma mansoni, parasita que tem no homem seu hospedeiro definitivo, mas que necessita de caramujos, como B. glabrata, como hospedeiros intermediários para desenvolver seu ciclo evolutivo. A transmissão desse parasita se dá pela liberação de seus ovos através das fezes do homem infectado. Em contato com a água, os miracídios eclodem e penetram nos caramujos e, algum tempo depois, liberam novas larvas. Na água, as larvas (cercarias) penetram na pele e/ou mucosa do homem, reiniciando o ciclo.

A doença apresenta duas fases durante seu processo evolutivo: aguda e crônica. Na primeira fase, os principais sintomas podem ser vermelhidão e manifestações de coceiras e dermatite na pele, febre alta, inapetência, fraqueza, enjoo, vômitos, tosse, diarreia e rápido emagrecimento. Na fase crônica, a mais grave, os sintomas são o aumento do abdômen e de órgãos como fígado e baço, hemorragias ao defecar, fadiga, cólica, prisão de ventre, cirrose e o aparecimento de ínguas em diversas partes do corpo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, as esquistossomoses são consideradas o segundo maior problema de saúde pública em todo o mundo, ficando atrás apenas da malária.


Texto: Keila Maia
Foto cedida pelo Grupo de Helmintologia e Malacologia Médica


 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Estação recebe exposição sobre biodiversidade em recife de corais, em JP

Exposição permanece em cartaz até o fim do mês de março; entrada é gratuita
 
Mais entretenimento | Em 25/02/2017 às 12h17, atualizado em 25/02/2017 às 12h43 | Por Redação

 
Estação Cabo Branco
Estação Cabo Branco. Divulgação/Secom-JP.

Está aberta para visitação a exposição “Biodiversidade em Recifes de Corais”, no primeiro pavimento da Torre Mirante da Estação Cabo Branco Ciência, Cultura e Artes, no Altiplano. A exposição permanece em cartaz até o fim do mês de março. O horário de visitação é terça a sexta-feira de 9h às 18h, e sábados, domingos e feriados das 10h às 19h. A entrada é gratuita.
  
Em “Biodiversidade em Recifes de Corais”, o visitante vai encontrar 19 fotografias subaquáticas tiradas de lugares inusitados de autoria de Dhieggo Gomes, que nos transportam, com emoção refletida nas imagens, para a curiosidade sobre o universo subaquático, e ao mesmo tempo valoriza a biodiversidade local em áreas de recifes de corais do Seixas.
 
Seu olhar poético nos remete a uma sensação da “vida pulsante” através do registro de fotografias subaquáticas, onde é possível encontrar organismo, tais como, algas (flutuantes e enraizadas “sob o movimento do mar”), corais (antozoários), peixes (enguia, peixe lagarto, dentre outras espécies de “cores vivas”), anelídeo (poliqueto) e o molusco (tintureiro ou Aplysia).
 
Dhieggo revela, com simplicidade, uma estética criativa e promove um diálogo com o público, explorando a temática “Meio Ambiente”, motivando os espectadores para a real necessidade de uma sensibilização crítica para a conservação.
 
O artista contribui também para uma visão científico-educativa e nos leva e refletir sobre os encantos que a vida marinha nos proporciona, e nos faz pensar que “é preciso conhecer para poder preservar” nosso patrimônio biológico e monumental.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Conheça o Sci-Hub: o Pirate Bay dos artigos acadêmicos

Plataforma digital dá acesso gratuito a mais de 47 milhões artigos científicos, cujo acesso seria cobrado se acessado através das fontes originais.

por Apolinário e KaNNoN

A cientista da computação cazaquistanesa Alexandra Elbakyan pode ser considerada uma Robin Hood dos tempos modernos: criou o Sci-Hub, uma plataforma digital que dá acesso livre a quase 50 milhões de artigos científicos


Diferente do que se comumente atribui, a história de Robin Hood não é a de roubar dos ricos para dar aos pobres. Na verdade, o herói mítico roubava do governo para dar de volta àqueles que pagavam impostos abusivos. Ou seja, combatia arbitrariedades do Estado, da mesma forma, o Sci-Hub combate a arbitrariedade da escassez artificial criada pelo Estado através da propriedade intelectual, fornecendo gratuitamente artigos acadêmicos para todos.

As razões da criação da plataforma estão descritas na página, “um artigo de investigação é uma publicação especial escrita por cientistas para ser lida por outros cientistas. Os artigos são fontes primárias necessárias para a pesquisa – por exemplo, contém informação detalhada sobre novos resultados e experiências. Neste momento, a mínima distribuição de artigos de investigação, bem como de outras fontes científicas ou educativas, está artificialmente restringida por leis de direitos de autor”.

A filosofia é exatamente essa: dar acesso livre a todos os artigos científicos publicados – até agora, e também no futuro. Esse propósito está, aliás, estampado na página de abertura da plataforma (http://sci-hub.cc), que clama ser a primeira a prosseguir, e a concretizar, este objetivo. Com quase 50 milhões de artigos no seu portfólio, deve estar, aliás, muito perto de conseguir disponibilizar tudo quanto já se publicou no universo das revistas científicas.

Pirateando
O site funciona em três etapas. Primeiro, quem busca algum artigo insere o link ou o código DOI da obra a qual deseja ter acesso. Depois, a plataforma tenta baixar o artigo solicitado buscando por uma cópia no banco de dados LibGen, um banco de conteúdo pirata, que hospeda mais de cem milhões de livros (provavelmente aquele PDF que você nunca encontrou no Google está lá), e que abriu suas portas para trabalhos acadêmicos em 2012 e agora contém mais de 48 milhões de artigos científicos.

No entanto, a terceira etapa é a parte engenhosa do sistema: se LibGen ainda não tiver uma cópia do documento, o Sci-Hub tem uma segunda maneira de ignorar o pedido por pagamento da revista científica: o compartilhamento de senhas. O site conta com uma rede global de compartilhamentos de senhas e acessos a proxies de universidades que disponibilizam para seus estudantes o conteúdo aberto de algumas publicações científicas.

Isso permite que o Sci-Hub encaminhe o usuário direto para o PDF do artigo que ele quer acessar, através de senhas ou proxies universitários, editoras como JSTOR, Springer, Sage e Elsevier. Depois de entregar o artigo para o usuário em questão de segundos, o Sci-Hub doa uma cópia do documento para LibGen, sendo desnecessário acessar novamente o site da universidade na próxima requisição, e o artigo fica então armazenado para sempre, acessível por todos e qualquer um.

Problemas Legais
A popularidade do site atraiu a atenção das editoras de revistas científicas e o caso foi parar na Justiça norte-americana. A cientista cazaquistanesa foi processada pela editora Elsevier, que recorreu aos tribunais para que a justiça obrigasse o fechamento do site, o que de fato aconteceu por alguns dias. No entanto, a jurisdição norte-americana só abarca sites com domínio .com, .net e .org. O site, criado por uma cazaquistanesa e hospedado na Rússia, ressurgiu no domínio .io e a jurisdição norte-americana pouco pode fazer com relação a isso.

Em entrevista ao portal Vox, Alexandra afirmou que é impossível que o site saia do ar, mas alertou que a possibilidade de uma perseguição maior das editoras e dos sistemas de justiça provavelmente a forçariam a tirar o site de um domínio publicamente acessível, e colocar o site em redes descentralizadas e anonimizadas, como o TOR (conhecidas popularmente como deep web).

A cientista faz a distinção entre a questão científica e de materiais acadêmicos e a questão da pirataria na indústria do entretenimento. “Todos os trabalhos no website são escritos por cientistas, que não recebem dinheiro pelo que a Elsevier cobra”, Alexandra ainda invoca o artigo 27º da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, que institui que “todos têm o livre direito de participar na vida cultural da comunidade, de desfrutar da arte e de fazer parte do avanço científico e dos seus benefícios”.

As coisas estão mudando
Em 2008, Aaron Swartz escreveu o “Guerilla Open Access Manifesto“,  e deu sua vida por essa causa. Alexandra, que se define como uma pirata convicta, continua essa luta, mas não sozinha. A batalha contra as editoras de acesso fechado está sendo encampada por cada vez mais pesquisadores. Financiadores de pesquisa acadêmica como o Wellcome Trust estão se unindo a essa batalha, instituindo políticas de acesso aberto que proíbem seus pesquisadores de publicar em revistas com acesso fechado.

Mas nada disso ajuda os pesquisadores que precisam de acesso à ciência que está fechada agora. Da sua parte, Alexandra não está desistindo da luta, apesar da pressão legal crescente. Ela garante que o Sci-Hub não vai parar suas atividades, e tem planos para expandir sua base de dados.

O Sci-Hub pode representar, para a indústria da pesquisa acadêmica o que o Napster representou para a indústria da música. A ciência deve prosseguir cada vez mais livre, aberta e disponível. Os modelos de negócio que quiserem seguir existindo, precisarão se alterar, se atualizar, se modernizar.
 
O papagaio pirata está fora da gaiola, e se a Elsevier, JSTOR ou outros paywalls de conteúdo científico pensam que podem colocá-lo de volta, podem estar muito enganados.


 

Não tente argumentar com bolsominions, eles funcionam como os psicóticos

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