Em uma nota de repúdio publicada no Facebook nesta sexta (24), o
coletivo, que preferiu não indicar um porta-voz para dar entrevistas,
afirmou que decidiu fazer a intervenção surpresa na aula para chamar a
atenção para o fato de que apenas um entre os cerca de 20 alunos
matriculados na disciplina é negro, e por causa do "conteúdo
extremamente racista e ofensivo do material proposto".
Em entrevista ao G1, o professor Pearson explicou que a
disciplina tem como foco principal a prática do inglês oral e escrito, e
que todas as semanas indica artigos de áreas diversas, mas sem
aprofundamento específico, sobre os quais os alunos precisam ler e
opinar durante a aula, em inglês, para depois redigir uma dissertação,
também na língua inglesa.
"Houve uma grande deturpação. Eles disseram que eu mudei a língua da
aula para o inglês para eles não entenderem, mas a minha aula é em
inglês, a disciplina chama Inglês para a Ciência", explicou o professor.
"Eles não foram convidados. Eles simplesmente entraram, disseram que
queriam discutir uma questão, eu disse que tudo bem, mas eles não
queriam fazer isso em inglês, e eu disse que minha aula era em inglês."
Segundo o grupo, o professor teve uma postura "extremamente racista"
porque defendeu subjetivamente o texto e não valorizou o diálogo,
"diversas vezes batendo palmas em cima da falas dos estudantes negros,
dizendo 'Shut up!' e se recusando a fazer a discussão em português,
mesmo sabendo que havia estudantes que não entendiam inglês e por isso,
não podiam se defender".
Ao G1, Pearson negou a acusação de racista, e disse
que se sentiu "extremamente ofendido" pelo ato. "Eles começaram a gritar
ideologias e slogan políticos, ocuparam quase duas horas das quatro
horas da aula, em detrimento dos meus alunos."
QI e raças
O texto que o professor indicou para o debate da última quarta discute
hipóteses levantadas pelo cientista James Watson, um dos pesquisadores
que co-descobriram a estrutura do DNA, na década de 1950. Em 2007,
Watson fez
declarações à imprensa
vinculando níveis de inteligência a diferentes etnias e origens
geográficas. Desde então, o cientista perdeu cargos e credibilidade
junto à comunidade acadêmica, e em 2014 anunciou que venderia a medalha
do Prêmio Nobel, que ganhou em 1962 pela co-descoberta, porque
necessitava de dinheiro.
Pearson, que iniciou sua carreira acadêmica no Reino Unido, mas
trabalhou durante anos nos Países Baixos e nos Estados Unidos, afirmou
que conhece Watson pessoalmente, e que o colega da área de genética deu
uma declaração "muito lamentável".
"Ele é um homem muito honesto, mas é muito espontâneo, fala o que passa pela cabeça", disse o geneticista da USP.
Pearson não refutou a precisão científica da hipótese de Watson, que
defendeu que investimentos em educação em países africanos teriam pouco
retorno. A mensagem implícita da declaração, que fez com que Watson
fosse condenado ao ostracismo, é a de que, geneticamente, as populações
africanas têm inteligência inferior à de outras etnias. Mas o professor
da USP, afirmou que, atualmente, não existe tecnologia suficiente para
comprovar ou refutar essa hipótese.
Por sua vez, o coletivo Ocupação Preta afirmou, pelo Facebook, que "os
estudos de Watson foram rechaçados pela academia por serem baseados em
estudos de cefalometria (herdeira científica da frenologia, um ramo
pseudocientífico que serviu de base pra diversas atrocidades no meio
médico e sobretudo psiquiátrico-manicomial) e análises de aplicações de
testes de QI sem análises psicossociais", e que "Watson foi inclusive
exonerado de seu cargo de conselheiro no Spring Harbor Laboratory (CSHL)
em Nova Iorque em virtude de suas afirmações sobre a inferioridade
cognitiva de pessoas negras".
Cotas
Pearson afirmou que não é contra políticas de ação afirmativa. "Não
tenho nada contra ações afirmativas, mas acho que elas precisam ser
regulamentadas, precisam fazer sentido", explicou ele.
Segundo o britânico, quando ele veio viver no Brasil, o que mais o
chocou foi o fato de estudantes de famílias ricas poderem estudar na USP
sem pagar nada. "O que acontece no Brasil é que o dinheiro determina.
Os pais paga para esses jovens terem educação em escolas privadas. É uma
visão reversa do mundo, e isso precisa ser reconsiderado seriamente.
Isso precisa mudar. Eu não sei dizer como, mas precisa mudar, porque é
um anacronismo."
Ele afirmou ainda que se ocupa da parte científica da questão genética,
que não pode ser explicada com a política. "Por um lado, eu me
simpatizo com a questão dos brasileiros de ascendência africana, que
precisa ser considerada. Mas essas pessoas estavam lá só para fazer uma
declaração política."
O grupo esclareceu que a intenção era ampliar a representatividade do
ponto de vista da população negra no debate. "Contestamos, nos
manifestamos contrários à escolha do artigo e fomos enegrecer a
discussão com nossos posicionamento de negras e negros que somos,
estudantes das mais diversas áreas da universidade que sentem o racismo
todos os dias, resistindo e combatendo com muita força", disseram os
estudantes, por meio da nota.
Vínculo com a USP
O professor britânico se mudou para o Brasil em 2005, depois de se
aposentar, para acompanhar sua esposa, uma geneticista brasileira, e diz
que tem vínculo de professor visitante com a USP. Ele participa do
Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco, e diz que não
recebe salário para ministrar a disciplina English for Science.
Segundo ele, as aulas não acontecem todos os anos, e têm cerca de 20
estudantes de diversas áreas da USP, como biomedicina e psicologia,
escolhidos de forma a dar diversidade à turma. Ele afirma que, neste
ano, só tem um aluno negro na classe, mas que isso se deve à baixa
procura de candidatos. "Não posso ter uma turma muito grande porque
seriam muitas dissertações para corrigir e não teria tempo", explicou.
A motivação para criar a disciplina, há cerca de seis anos, é o fato de
a USP ter um volume muito pequeno de publicações e citações em inglês, o
que afeta a credibilidade e o alcance internacional da pesquisa feita
no Brasil. "O inglês é a língua franca da ciência. Os estudantes que
chegam ao nível de pós-graduando são muito inteligentes, mas o inglês
deles ainda é muito ruim."
Pearson diz que essa foi a segunda vez que usou o texto sobre as
hipóteses de James Watson. Porém, após o ato, ele diz que considera
deixar de ministrar a disciplina. "Tenho 76 anos, não preciso desse
aborrecimento", disse o britânico.