sábado, 29 de novembro de 2014

Quanto um biólogo deve cobrar


Já faz algum tempo que gostaria de montar uma postagem, com os valores de referências para remuneração de biólogos.

Separei a tabela de valores de referências de honorários para Biólogos, de acordo com a Instrução Conselho Federal de Biologia – CFBio – Nº 04/2007 de 30 de novembro de 2007. Os valores mínimos a serem cobrados são:

Júnior 1
 Júnior 2
 Pleno
 Sênior
 Até 3 anos após a graduação
 De 3 até 5 anos após a graduação
 De 6 a 15 anos após a graduação ou com Mestrado
 Mais de 15 anos após a graduação ou com Doutorado
R$ 40,00
R$ 60,00
R$ 90,00
R$ 150,00
fonte: Biólogo, profissional da vida e crbio01.gov.br

Os valores acima são as referências de 2007 ou seja, não fiz nenhum cálculo de reajuste. Porém, em junho de 2013, o Deputado Federal DANRLEI DE DEUS HINTERHOLZ do PSD-RS (email)apresentou um Projeto de Lei nº 5755, que dispõe basicamente sobre jornada, condições de trabalho e piso salarial nacional para o Biólogo. Como o foco do site é herpetologia, vamos dar uma ênfase aos profissionais que trabalham com o grupo. Separamos, então, os principais pontos do projeto de lei:
 
* Trabalho noturno terá remuneração superior em pelo menos 50% (cinqüenta por cento) sobre o valor da hora diurna, com o acréscimo fixado em negociação coletiva anual, e se não tiver acordo, fica em 60%.
* O piso seria de 5 salários mínimos com uma carga semanal de 36h.
(aproximadamente R$ 3.600,00 para iniciar – pode variar de Estado para Estado)
* O trabalho em campo, com risco de acidentes por animais peçonhentos, será atividade periculosa. Atividades de contato com plantas alergênicas, mesmo em condições de campo, passam a ser consideradas como insalubres. Docência em laboratório também.
 * Uniformes e EPIs e EPCs de qualidade para os Biólogos e seus auxiliares quando necessitarem.

Sendo assim, fiz um reajuste simples, com os valores de referências de 2007 e os adicionais previstos no projeto de lei. Não levei em conta inflação e reajustes do salário mínimo de 2007 ->2013.

Confira a tabela dos valores que herpetólogos deveriam cobrar.


 Valor mínimo recomendado pelo CFBio
Adicional Noturno
Insalubridade (médio)
Periculosidade
Valor de Refêrencia total


50%
20%
30%

Biólogo Junior 1
R$ 40,00
R$ 20,00
R$ 8,00
R$ 12,00
R$ 80,00
Biólogo Junior 2
R$ 60,00
R$ 30,00
R$ 12,00
R$ 18,00
R$ 120,00
Biólogo Pleno
R$ 90,00
R$ 45,00
R$ 18,00
R$ 27,00
R$ 180,00
Biólogo Senior
R$ 150,00
R$ 75,00
R$ 30,00
R$ 45,00
R$ 300,00

Veja a PL completa em:
http://www.camara.gov.br/580663  e  http://www.camara.gov.br/1098962


Biologia é Profissão regulamentada. Saiba +em: www.crbio01.gov.br/cms/index.php?secao=6&subsecao=0&completo=1

*Para chegar ao números da 2 tabela reajustei os valores de referência do CFBio.

Fonte: herpeto.org


Aluno de Pós na UFPB lança livro sobre Fauna e Flora

O livro “Um Caderno e uma moto: narrativas de uma viagem”, de autoria do aluno de Pós-Graduação em Zoologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Caio Mattos Brito, será lançado dia 3 de dezembro às 19h00, no Auditório do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ), Campus de João Pessoa.
 
O livro narra a aventura vivida durante viagem de 11 mil quilômetros percorridos em 175 horas no trajeto de ida e volta de Fortaleza, no Ceará, a Ubatuba, em São Paulo. Para Caio, a ida tinha apenas um foco: chegar ao destino. Já a volta foi dedicada ao desbravamento do País, registrando a sua fauna e a sua flora. Apaixonado por pássaros, o objetivo principal do biólogo era registrá-las fotograficamente.
 
De acordo com Rémi F. Lavergne, no prefácio: “Não, felizmente, por sorte nossa, Caio não é ‘normal ’”, pois passa longe do normal dos dias de hoje realizar essa façanha, percorrer mais de 10.000km de moto, sem saber exatamente o que esperar do amanhã. Para nossa sorte, o jovem aventureiro anotou tudo em um caderninho, e agora revela para nós os segredos guardados naquelas páginas.
 
Fonte:  Ascom - Reitoria (Fernando Caldeira / Jéssica Azevedo)
 
 
 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Contestação à NotaTécnica da ABRASCO sobre a liberação comercial e uso do mosquito transgênico Aedes aegypti para o controle da dengue no Brasil

No portal oficial da ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) há uma nota técnica desta Associação sobre a forma como foram avaliados os riscos das liberações planejada e comercial da variedade OX513A transgênica de Aedes aegypti, o vetor da dengue, pela CTNBio e sobre seu eventual uso como mais uma ferramenta no combate à dengue no Brasil.
 
A manifestação contem muitos erros de informação e de interpretação, alguns leves e outros muito graves, que necessitam ser apontados ao público, o que é feito a seguir de forma discriminada.
 
a) sobre a construção desta variedade transgênica, a ABRASCO demonstra parco conhecimento, quando diz que foi utilizada “a tetraciclina para a modificação das larvas selvagens”. É disparatada a afirmação, uma vez que a modificação genética é complexa e não emprega a tetraciclina. Este antibiótico é empregado para manter viva a linhagem geneticamente modificada em laboratório, apenas isso.
 
b) Logo em seguida a ABRASCO afirma que “mesmo sem ter a autorização da CTNBio para a produção em escala do mosquito transgênico, a empresa disponibilizou o Aedes aegypti transgênico desde 2011”. Isso é inteiramente falso: a biofábrica Moscamed e a USP, parceiras da Oxitec, solicitaram e obtiveram da CTNBio a aprovação para ensaios a campo (liberação planejada) da variedade GM de A. aegypti.
 
c) Na frase seguinte, novo erro de informação: a ABRASCO diz que os experimentos foram feitos “inicialmente na cidade de Jacobina e posteriormente em Juazeiro”. É exatamente o oposto, mas a confusão parece proposital, uma vez que mais adiante a ABRASCO se debruça sobre a questão da dengue em Jacobina, procurando ligar os experimentos de liberação planejada com o surto presente de dengue naquela cidade.
 
d) a ABRASCO afirma que “apesar do uso por  anos de mosquito transgênico na  cidade de Jacobina, ...a prefeitura prorrogou a situação de emergência para  dengue”, como se a liberação planejada tivesse o objetivo e o poder de controlar a dengue na cidade toda. Não é nada disso: a liberação tinha o objetivo de gerar dados para avaliação de risco do OGM, e não controlar a dengue, e foi feita em alguns bairros da cidade, mas de forma alguma na cidade toda. Esta confusão, iniciada pela AS-PTA e repetida aqui pela ABRASCO, é nociva ao entendimento da questão e prejudica a saúde púbica do país confundindo o público sobre a eficiência de uma tecnologia que só poderá ser ensaiada, efetivamente, em larga escala. O que foi feito até agora foi gerar dados para avaliação de risco, nada mais.
 
e) Um pouco mais abaixo no manifesto a ABRASCO se pergunta “como se aceita fazer experimentos que afetam uma doença de notificação compulsória em um contexto sanitário absolutamente sem controle? Como os resultados de experimentos com mosquito transgênico para controle da dengue  em Jacobina  foram utilizados para validar a decisão da CTNBio que autorizou a liberação de mosquito transgênico para o controle de dengue?”Ora, as liberações em Juazeiro e depois em Jacobina foram de pequena escala, com um objetivo bastante específico, em áreas previamente avaliadas por pesquisadores da USP, pela Oxitec e pela Moscamed, avaliadas previamente pela CTNBio, aprovadas e monitoradas. Como a ABRASCO se acha no direito de dizer que o contexto sanitário era absolutamente sem controle se ela jamais se debruçou sobre o problema? Não cabe aqui uma explicação detalhada de como os dados de biossegurança gerados nos dois experimentos foram empregados pela CTNBio, isso pode ser lido nos pareceres dos relatores e no parecer final, disponibilizados pela CTNBio e no portal da Biosafety Clearing House da Convenção de Biodiversidade.
 
e) Num certo ponto, a ABRASCO se questiona do apoio financeiro recebido pela Oxitec, como se receber dinheiro de fundações filantrópicas fosse crime: A Fundação Bill e Melida Gates apoio inicialmente os pesquisadores que fundaram a Oxitec, o que apenas mostra que eles tinham merecimento e que a ideia era inovadora e promissora. Mas estes recursos nada têm a ver com as atividades da empresa no Brasil. A desconfiança mórbida sobre a forma como a pesquisa e o desenvolvimento são financiados é uma característica de certos setores da sociedade na qual se inserem, infelizmente, alguns conselheiros da ABRASCO.
 
f)  O uso de mosquitos transgênicos para o controle da dengue, em associação com as demais formas de combate a esta endemia, evidentemente não está ainda normatizado no país. É isso que se deve buscar agora, e não uma oposição cega e teimosa a novas tecnologias, apenas porque usam a biotecnologia moderna.
 
g)  Por fim a ABRASCO imagina que se deve ter muito cuidado em eliminar o A. aegytpi por que o A. albopictus pode invadir os nichos deixados livres. Ora, isso nunca ocorreu em outras partes e é improvável, pela biologia do A. albopictus, que a ABRSCO parece totalmente desconhecer. Analogamente, é como pedir ao um caçador numa trilha na selva, com um leão faminto e feroz à sua frente, que não atire, porque atrás do leão pode haver um tigre, que não está visível e não se sabe se está com fome...
 
Uma lástima que a ABRSCO se comporte agora como os políticos positivistas se comportaram na época de Oswaldo Cruz, longe da ciência e perto demais de uma ideologia que beira o irresponsável
Fonte

Nota Técnica da Abrasco frente à liberação comercial de mosquitos transgênicos pela CTNBio

19 de setembro de 2014 - Por Comunicação Abrasco

Associação posiciona-se sobre o uso de mosquitos geneticamente modificados

Produção de mosquitos transgênicos da empresa empresa inglesa de biotecnologia Oxitec, sediada em Campinas - Foto: Reprodução Internet


A Associação Brasileira de Saúde Coletiva recebeu com grande preocupação a cópia da transcrição da 171ª Reunião Ordinária da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança –  CTNBio – de 03/05/2014 em que autoriza a liberação comercial de mosquitos transgênicos.
 
As decisão da CTNBio ocorreu no contexto em que uma fábrica de produção de mosquitos transgênicos já estava instalada na  cidade de Campinas – SP. Os mosquitos transgênicos serão usados para pesquisa e combate ao  vetor da dengue, o mosquito Aedes aegypti, no país.
 
A responsável pela produção é empresa inglesa de biotecnologia Oxitec. A instalação da fábrica de mosquito  começou em 2013. A equipe técnica é formada basicamente por especialistas estrangeiros, que na Europa desenvolvem biotecnologias adotadas pela indústria farmacêutica para a malária e febre amarela.
A unidade produtiva (Technopark) da Oxitec, em Campinas produz em laboratório mosquitos machos de Aedes aegypti geneticamente modificados (linhagem OX513A), mediante a utilização de tetraciclina usada para a modificação das larvas selvagens.
 
Mesmo sem ter a autorização da CTNBio para a produção em escala do mosquito transgênico, a empresa disponibilizou o Aedes aegypti transgênico desde 2011,  para experimentos inicialmente na cidade de Jacobina e posteriormente em Juazeiro, ambas do Estado da Bahia e que contou com o apoio do governo do estado e das prefeituras dos respectivos municípios. As pesquisas foram apoiadas por organização social denominada Moscamed.
 
Os experimentos foram executados nessas duas cidades, considerados como projetos específicos e isolados.   A proposta é que cada cidade brasileira poderá montar sua fábrica de ovos transgênicos. Após os testes nessas duas cidades, a Oxitec protocolou a solicitação de liberação comercial na CTNBio.
 
Apesar do uso por  dois anos de mosquito transgênico na  cidade de Jacobina, Bahia, o Decreto Nº 089 de 10 de Fevereiro de 2014,  pela  prefeitura Municipal de Jacobina (D.O. Terça-feira • 18 de Fevereiro de 2014 • Ano IX • Nº 798) prorrogou a situação de emergência para  dengue no Município. Para fundamentar esse decreto o Prefeito da cidade considerou: “que Jacobina é endêmico para a dengue e conta em sua série histórica duas epidemias de dengue registradas nos anos de 2009 e 2012; que no ano de 2012 o Município não realizou os trabalhos de campo de forma adequada, registrando 1708 casos suspeitos e inclusive a ocorrência de dois óbitos; que as ações empreendidas em 2013 com o trabalho de campo, ainda não encerrou a cadeia epidemiológica, devendo a municipalidade em ação continuar a manter o controle antes do período de início de atividade do mosquito Aedes aegypti; que os casos de dengue se concentram principalmente no primeiro semestre do ano, com pico no mês de abril, conforme perfis de sazonalidade do mosquito Aedes aegypti observadas no país, e que para encerrar a cadeia epidemiológica é necessário iniciar as atividades de controle antes desse período de maior atividade do mosquito; que as ações em 2014 são planejadas e realizadas de modo a tentar conter uma nova epidemia, buscando proteger a população, investindo em ações de prevenção, combate”. (http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2014/05/Decreto-Jacobina2014.pdf).
 
Perguntamos, como se aceita fazer experimentos que afetam uma doença de notificação compulsória em um contexto sanitário absolutamente sem controle? Como os resultados de experimentos com mosquito transgênico para controle da dengue  em Jacobina  foram utilizados para validar a decisão da CTNBio que autorizou a liberação de mosquito transgênico para o controle de dengue?
 
Sabemos que não houve ainda posicionamento e autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa - sobre a produção, venda e uso desses mosquitos transgênicos.  Mas,  como fica  a situação da fábrica de mosquitos que está propagandeando esse produto em Prefeituras  Municipais para que comprem milhões de mosquitos  transgênicos a serem liberados  semanalmente em seus territórios?
 
Essas pesquisas com mosquitos transgênicos foram apoiadas pela Fundação Bill Gates, que abriu edital internacional em 2004, para o qual concorreram diversas universidades. Sobre esse tema o Gt de Saúde e  Ambiente da Abrasco já alertava em Carta ao Editor da Revista Científica Cadernos de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz- sobre “Os verdadeiros desafios da saúde global” (GOUVEIA; LIEBER; AUGUSTO, 2004).
 
O controle da endemia e dos surtos epidêmicos de dengue seguem protocolos da Secretaria de Vigilância em Saúde , do Ministério da Saúde – SVS/MS – e orientação internacional da Organização Pan-americana de Saúde – OPAS. A despeito das controvérsias sobre a eficácia dos sucessivos programas de controle vetorial da dengue no Brasil,  até o momento não houve nenhuma norma técnica desses órgãos orientando mudanças no programa de controle vetorial da dengue incluindo a modalidade trangênica. Sobre uma perspectiva crítica do controle vetorialpara dengue é possível ler outro alerta feito por pesquisadores na mesma revista (AUGUSTO et al, 1998) e também,  entre outros, no livro de  Augusto e Colaboradores (2004), onde diversos entomologistas se posicionaram. A questão da dengue é complexa e vai para além de medidas focais. O Brasil, nas últimas duas décadas,  deixou de ser um país epidêmico para dengue, para ser endêmico em todo território nacional.
 
A doença dengue é uma virose, na qual estão implicados, no Brasil, os quatro sorotipos do virus. Embora, considerada de baixa letalidade, as dificuldades no acesso à assistência médica, a baixa resolutividade dos serviços de saúde, os equívocos de orientação e insuficiências de medidas sanitárias, faz com que nesse contexto, as complicações da infecção pelo virus do dengue se tornam mais frequente, mais grave e a mortalidade da dengue maior no país. A complicação mais preocupante tem sido a Febre Hemorrágica, mas que não é necessariamente letal, quando há atendimento médico correto.
 
Mais uma vez, a decisão de controlar essa endemia, apenas focando no vetor, é um equívoco. Pois, a determinação da dengue é muito mais social e ambiental do que biológica, embora estejam envolvidas na sua produção três ecologias: do virus, do vetor e do ser humano, todas interdependentes.
 
Analisando a Ata da 171ª Reunião Ordinária da CTNBio acima referida foram observados diversos elementos com  análise inadequada ou com  questões sem resposta técnica suficiente. Também se observa argumentos pouco consistentes por parte do representante da saúde nessa comissão, de quem se esperaria maior compromisso com os aspectos sanitários envolvidos.
 
Abaixo apenas alguns destaques para ilustrar como esse  assunto,  de tamanha importância para a saúde pública, foi tratado na CTNBio:
 
1) Dados Insuficientes: Os dados preliminares dos testes realizados nas cidades de Jacobina e Juazeiro, do estado da Bahia, “são  insuficientes para um posicionamento consistente de qualquer órgão de pesquisa, muito mais, para a CTNBio” (posicionamento de um dos conselheiros, Linha 180).  Um conselheiro indagou: “Que motivos justificariam a aceitação precipitada de resultados preliminares com antecipação da avaliação pela CTNBio” …, “contrariando a prática até então utilizada recomendada por esta própria Comissão?” (Linha 197). Os dados preliminares foram colhidos em três municípios do interior do país. “Foram somente realizados três estudos de caso — liberações em Caiman, Juazeiro e Mandacaru, Bahia”… “anos de 2012 e 2013”.  Esses  municípios possuem sistemas de vigilância epidemiológica incipientes e com “pouca sensibilidade no registro de casos da doença e da análise médica de alguma intercorrência da doença durante e depois da liberação planejada do organismo modificado. Portanto, não é possível aferir uma alta eficácia dessa biotecnologia, nem muito menos extrapolar esses resultados para uma escala planetária, como sugere o relatório da empresa” (Posicionamento de um dos conselheiros, Linha 174 e 177). Destacou-se também outro aspecto: “A ocupação do nicho ecológico preferencial do Aedes Aegypti nas áreas urbanas não mereceu suficiente atenção por parte do dossiê ou dos demais pareceristas” (Posicionamento de um dos conselheiros, Linha 297).
 
2) Rapidez no processo:  O  “tratamento concedido pela CTNBio a esse caso, se distingue pela excepcionalidade”.  Foi protocolado em três de julho de 2013 e publicado no dia 15 de julho de 2013, recebendo pareceres favoráveis dos relatores nas Subcomissões Humana e Animal, aprovada em fevereiro de 2014 e nas Subcomissões Vegetal e Ambiental.  Um dos conselheiros considera este fato indício de prevaricação, pois “ainda na fase de avaliação do processo, na Subcomissão Humana e Animal, Saúde Humana e Animal, de forma não protocolada e inesperada, registrou-se a intervenção do representante da proponente que realizou exposição do mérito da biotecnologia, confundindo-se com uma espécie de marketing institucional. O impacto dessa concessão, no que diz respeito à isonomia de tratamento com as outras biotecnologia e empresas não deve ser desprezado” (Posicionamento de um dos conselheiros, Linha 163, 186, 204 e 216).
 
3) Ausência de dispositivo de biossegurança: A liberação planejada é um dispositivo de biossegurança imprescindível. A Resolução Normativa Nº 6, de 6 de novembro de 2008, que dispõe sobre as normas para esse processo no meio ambiente de Organismos Geneticamente Modificados (OGM), somente trata de organismos de origem vegetal e seus derivados.  No entanto, essas normas não são adequadas para avaliação de insetos (posicionamento de um dos conselheiros, Linha 188).  Sabe-se que  liberação planejada deve ser testada em todos os ecossistemas relevantes para a avaliação de risco e até o final.  Por exemplo, no caso do Milho D5, a  Justiça suspendeu a decisão  de sua produção e comercialização, com base no argumento que não foram realizados os estudos nos biomas do Norte e Nordeste, proibindo-se o cultivo naquelas regiões.
 
4) Falta análise entomológica e epidemiológica: O fato do Aedes aegypti ter sido considerado erradicado no Brasil na década de 70,  e que hoje se faz  presente em todo o território nacional, em que pese a sua capacidade de voo autônomo não ultrapassar os 200 metros, não foi considerado relevante. A liberação em larga escala do OX513A, alterando as condições de reprodução do Aedes Aegypti pode atrair outros vetores, como o A. albopictus, espécie selvagem  existente no Brasil e  com capacidade vetorial  para o vírus da dengue. Pergunta sem resposta feita por um dos conselheiros: nessa situação quais seriam as implicações sobre os mecanismos adaptativos do vírus em termos epidemiológicos? (Linha 254 a 252; 299).
 
5) Incongruências do relatório -  Classificação do risco: Com base na Resolução Normativa 02, de 27 de novembro de 2006, a subcomissão enquadrou o mosquito GM na classe do risco 1 (baixo risco individual e baixo risco para a coletividade), enquanto que a empresa afirma ser a classe de risco 2 (moderado risco individual e baixo risco para a coletividade).  Assim, a CTNBio foi  menos restrita que a própria empresa interessada.
 
Diante do Exposto, a Abrasco vem se manifestar contrária a autorização pela Anvisa e pela SVS/MS de utilização de mosquitos transgênicos para o controle vetorial da dengue. Propomos também que sejam criados fórum de debates públicos sobre o controle da dengue realizado por meio do mosquito transgênico. A Associação também se posiciona para abrir um debate nacional sobre a forma como a CTNBio delibera sobre temas de interesse da saúde pública e ambiental.

Em 15 de setembro de 2014


quinta-feira, 19 de junho de 2014

10 ideias científicas que cientistas gostariam que você parasse de usar de forma errada

jun 18, 2014

Crédito da Imagem: Mimi and Eunice.
Muitas ideias deixaram o mundo da ciência e tomaram seu lugar na nossa linguagem cotidiana – e infelizmente elas são quase sempre utilizadas de forma incorreta. Pedimos a um grupo de cientistas para que nos contassem quais termos científicos eles acreditam que sejam os mais comumente mal compreendidos. Aqui estão 10 deles.

1. Prova
O Físico Sean Carroll disse que:

Eu diria que a “prova” é o conceito mais mal-entendido em toda a ciência. Ele tem uma definição técnica (uma demonstração lógica de que certas conclusões seguem a partir de certas suposições) que difere muito da forma como o termo costuma ser utilizado em conversas casuais, que está mais próxima de significar “fortes evidências a favor de alguma coisa”. Há uma incompatibilidade entre a forma como os cientistas falam e a forma como as pessoas escutam, pois esses tem uma definição mais forte em mente. Seguindo esta definição, a ciência nunca prova nada! Então quando somos perguntados “Qual é a sua prova de que evoluímos a partir de outras espécies?” ou “Você pode realmente provar que o aquecimento global é causado por ação antrópica?” nós tendemos a titubear ao invés de simplesmente responder “É claro que podemos provar”. O fato de que a ciência nunca prova nada, mas simplesmente cria teorias cada vez mais confiáveis sobre o mundo, mas que ainda assim estão sempre sujeitas a atualizações e melhorias, é um dos aspectos chave do porquê a ciência é tão bem sucedida.

2. Teoria
O Astrofísico Dave Goldberg tem uma teoria sobre a palavra “teoria”:

O publico geral ouve a palavra “teoria” como um sinônimo para “ideia” ou “suposição”. Sabemos que não é assim. Teorias científicas são sistemas inteiros de ideias testáveis que são potencialmente refutáveis tanto pelas evidências disponíveis quanto por experimentos que alguém possa realizar. As melhores teorias (nas quais eu incluo a relatividade restrita, a mecânica quântica e a evolução) resistiram a cem anos ou mais de desafios, tanto de pessoas que queriam se provar mais inteligentes que Einstein, quanto de pessoas que não gostam de desafios metafísicos contra sua visão de mundo. Por fim, teorias são maleáveis, mas não indefinidamente. Elas podem estar incompletas ou erradas em algum detalhe específico sem que elas inteiras desmoronem por causa disso. A evolução,por exemplo, sofreu várias adaptações ao longo dos anos, mas não tanto a ponto de que não se possa mais reconhecer que ainda se trata da mesma teoria. O problema com a frase “só uma teoria” é que ela sugere que uma teoria científica real é algo pequeno, o que não é verdade.

3. Incerteza e Estranheza Quânticas
Goldberg adiciona que há outra ideia que foi mal interpretada de forma ainda mais perniciosa do que a de “teoria”. Acontece quando pessoas se apropriam de conceitos da física para propósitos espirituais ou “New Age”.

Esta interpretação errada é uma exploração da mecânica quântica por uma certa estirpe de espiritualistas e autores de auto-ajuda, sintetizada pela abominação (o documentário) “ Quem Somos Nós?” (“What the Bleep Do We Know?”). A mecânica quântica, de forma bem conhecida, trabalha com medidas desde sua parte central. Um observador medindo posição, momento ou energia faz com que a “função de onda colapse” de forma não determinística. (Inclusive, uma das primeiras colunas que escrevi foi “Quão esperto você precisa ser para colapsar uma função de onda?”). Mas o fato de o universo não ser determinístico não significa que é você que o está controlando. É notável (e, francamente, alarmante) o grau com que a incerteza e a estranheza quânticas são inextricavelmente ligadas por certos grupos à ideia de alma, de humanos controlando o universo, ou alguma outra pseudociência. No fim das contas, nós somos feitos de partículas quânticas (prótons, nêutrons, elétrons) e somos parte do universo quântico. Isso é legal, claro, mas apenas no sentido de que toda a física é legal.

4. Aprendido vs Inato
A Bióloga Evolutiva Marlene Zuk diz que:
 
Um dos meus [enganos] favoritos é a ideia de o comportamento ser “aprendido vs inato” ou qualquer outra versão “estímulos-natureza” disso. A primeira pergunta que geralmente me fazem quando eu falo sobre o comportamento, é se ele é “genético” ou não, o que é uma interpretação errada, pois TODAS as características, o tempo todo, são o resultado de uma contribuição vinda dos genes e outra do ambiente. Apenas as diferenças entre as características, e não as características em si, podem ser genéticas ou aprendidas – como o caso de você ter dois gêmeos idênticos criados em ambientes diferentes que fazem algo diferente (como falar idiomas diferentes) – esta diferença é aprendida. Mas falar francês ou italiano ou qualquer outra língua não é algo apenas aprendido, pois, obviamente, uma pessoa precisa de um certo plano de fundo genético para simplesmente ser capaz de falar.

5. Natural
O Biólogo Sintético Terry Johnson está realmente cansado das pessoas não entenderem o significado desta palavra:

“Natural” é uma palavra que tem sido usada em muitos contextos, com tantos significados diferentes que se tornou quase impossível de analisar. Seu uso mais básico, para distinguir fenômenos que existem apenas por causa da humanidade de fenômenos que não precisam dela para existir, presume que os humanos são, de alguma forma, separados da natureza, que nossos trabalhos são não-naturais quando comparados com, digamos, o de castores ou abelhas.

Quando se trata de comida “natural”, o termo é ainda mais escorregadio. Ele tem significados diferentes em países diferentes, e nos EUA, a FDA (US Food and Drug Administration) desistiu de dar uma definição significativa à comida natural (em grande parte em favor de outro termo nebuloso, “orgânico”). No Canadá, eu poderia comprar milho como “natural”, desde que não tenham sido a ele adicionadas ou removidas várias coisas antes da venda, porém o milho é o resultado de milhares de anos de seleção pelos humanos, de uma planta que não existiria sem nossa intervenção.

6. Gene
Johnson tem uma preocupação ainda maior com a forma como a palavra “gene” é usada:
 
Levou dois dias para 25 cientistas chegarem a: “uma região localizável da sequência genômica, correspondente a uma unidade de herança, que é associada a regiões reguladoras, transcritas e/ou outras regiões de sequências funcionais”. Isso significa que um gene é uma pequeno pedaço de DNA para o qual podemos apontar e dizer, “isso faz alguma coisa ou regula a produção de alguma coisa”. A definição, dessa forma, é bem flexível; não faz muito tempo desde que pensávamos que a maior parte do nosso DNA não servia para nada. Nós a chamávamos de “junk DNA” (DNA lixo, em tradução livre), mas nós estamos descobrindo que muito daquele “lixo” tem propósitos que não eram imediatamente óbvios.

Tipicamente, a palavra “gene” é mal utilizada quando vem seguida da palavra “para”. Há dois problemas aí. Todos nós temos genes para hemoglobinas, mas nem todos nós temos anemia falciforme. Pessoas diferentes possuem versões diferentes do gene da hemoglobina, chamados alelos. Há alelos de hemoglobina que são associados a doenças de células falciformes e outros que não são. Então, um gene se refere a uma família de alelos, da qual apenas alguns poucos membros, se algum, estão associados a doenças. O gene não é mal, pode acreditar em mim, você não vai viver muito sem hemoglobina – ainda que uma determinada versão de hemoglobina que você tenha possa vir a se tornar problemática.

O que mais me preocupa é a popularização da ideia de que quando uma variação genética está relacionada a alguma coisa, isso é o “gene para” aquela coisa. Esta linguagem sugere que “este gene causa doenças do coração”, quando na realidade, o que costuma ocorrer é que “pessoas que possuem este alelo parecem sofrer uma incidência ligeiramente maior de doenças do coração, mas nós não sabemos o motivo, e talvez existam vantagens que compensem esta característica, mas que nós ainda não percebemos por não estarmos procurando por elas”.

7. Estatisticamente Significativo
O matemático Jordan Ellenberg quer ajustar nossos registros sobre esta ideia:
“Estatisticamente significativo” é uma daquelas frases que os cientistas adorariam ter a chance de voltar atrás e dar a ela outro nome. “Significativo” sugere importância, mas o teste de significância estatística, desenvolvido pelo estatístico inglês R.A. Fisher, não mede a importância ou o tamanho de um efeito, apenas se somos capazes de distingui-lo, usando nossas mais afiadas ferramentas estatísticas, de zero. “Estatisticamente perceptível” ou “Estatisticamente notável” seriam muito melhores.

8. Sobrevivência do Mais Apto
A Paleoecologista Jacquelyn Gill diz que as pessoas entendem errado alguns dos princípios básicos da teoria evolutiva:

No topo da minha lista estaria a “sobrevivência do mais apto”. Pra começar, estas não são realmente as palavras de Darwin, e segundo, as pessoas tem um conceito equivocado sobre o que “aptidão” significa. Da mesma forma, há uma grande confusão sobre a evolução em geral, incluindo a ideia persistente de que ela é progressiva e direcional (ou inclusive dirigida pelos organismos; as pessoas não compreendem a ideia de seleção natural), ou que todas as características precisam ser adaptativas (Seleção sexual existe! Mutações aleatórias também!).

Mais apto não significa mais forte nem mais inteligente. Significa apenas um organismo que está mais bem adaptado ao seu ambiente, o que pode significar qualquer coisa, de “menor” ou “mais escorregadio”, até “mais venenoso” ou “mais capaz de viver sem água por semanas”. Ainda, as criaturas nem sempre evoluem de uma maneira que podemos explicar como adaptações. Seu caminho evolutivo pode ter mais a ver com mutações aleatórias, ou características que outros membros daquela espécie acham atraentes.

9. Escalas de Tempo Geológicas
Gill, cujo trabalho é centrado em ambientes Pleistocenos, que existiram há mais de 15,000 anos, diz estar consternada pelo quão pouco as pessoas parecem entender sobre as escalas de tempo do planeta.
Uma questão com a qual eu frequentemente me deparo é a falta de entendimento público das escalas de tempo geológicas. Qualquer coisa pré-histórica é comprimida na mente das pessoas, que acham que há 20,000 anos existiam espécies drasticamente diferente das atuais (não), ou até dinossauros (não, não, não). Aquelas miniaturas de plástico de dinossauros que frequentemente incluem no mesmo pacote homens das cavernas e até mamutes não ajudam muito.

10. Orgânico
A Entomologista Gwen Pearson diz que há uma constelação de termos que “viajam juntos” com a palavra “orgânico”, como “sem produtos químicos” e “natural”. Ela está cansada de ver o quão profundamente as pessoas os interpretam errado.

Estou menos incomodada sobre a maneira como tais termos estão tecnicamente incorretos [uma vez que toda comida é orgânica, por conter carbono e etc…]. [Minha preocupação é] a maneira como eles são utilizados para dispensar ou minimizar as diferenças reais na comida e sua cadeia de produção.

Coisas podem ser naturais e “orgânicas”, mas ainda bastante perigosas

Coisas podem ser “sintéticas” e fabricadas, porém seguras, e às vezes escolhas melhores. Se você está usando insulina, há boas chances de que seja de uma bactéria GMO. E ela está salvando vidas.
 


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Descoberta uma nova espécie de cobra-coral na Mata Atlântica

17/06/2014

Daniele Bragança


CobraGentil3 120 Coberta por anéis vermelhos, pretos e brancos, a Micrurus potyguara é venenosa, assim como outras corais verdadeiras. Foto: Claudio Sampaio/divulgação.

Uma cobra coral verdadeira coletada numa pequena área preservada na capital da Paraíba é a mais nova espécie de serpente conhecida no país. A espécie descrita na edição de abril da revista Zootaxa mostra como a rica biodiversidade da maltratada Mata Atlântica ainda esconde novas descobertas.

A maioria dos exemplares usados na descrição da nova espécie, batizada de Micrurus potyguara, foi encontrada na Mata do Buraquinho, um remanescente de Mata Atlântica localizado dentro do Jardim Botânico de João Pessoa, na capital da Paraíba. Uma floresta urbana, portanto.

De hábitos preferencialmente noturnos, mas que também pode ser encontrada durante o dia, a cobra coral verdadeira de pequeno porte pode chegar até 1 metro e 20 centímetros de comprimento e alimenta-se de presas cilíndricas como anfisbenideos, conhecidas como cobra-duas-cabeças.

De acordo com o Dr. Gentil Alves Pereira Filho, um dos autores da nova descoberta, a Micrurus potyguara tem o corpo coberto por anéis vermelhos, pretos e brancos que se estendem do dorso ate o ventre. “Trata-se de uma serpente potencialmente perigosa devido a seu veneno, embora não se tenha registros de acidentes nem com humanos. Até o momento poucos exemplares desta nova espécie são conhecidos e a distribuição atual esta restrita aos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco”, explicou. Também participaram da descoberta os biólogos Matheus Godoy Pires, Nelson Jorge da Silva, Darlan Tavares Feitosa, Ana Lúcia da Costa Prudente e Hussam Zaher.

Ainda de acordo com o biólogo, a serpente difere morfologicamente de outras espécies de cobras corais verdadeiras que ocorrem na área por apresentar as escamas parietais totalmente negras, a ponta da cauda negra, a ponta do focinho também inteiramente negra. “Não se sabe muito sobre a ecologia da serpente, não sabemos se ela se distribui ao longo de toda a Floresta Atlântica ou se esta restrita apenas a porção ao norte, onde foi encontrada”.

A serpente recebeu o nome Micrurus potyguara em homenagem aos índios Potiguares que habitavam em grande número a região onde a serpente foi descoberta.

Para Alves, a principal importância da descoberta da nova espécie reside no fato que ela sobrevive no bioma mais ameaçado do país, onde muitas espécies “são extintas sem nem mesmo terem sido cientificamente descobertas”. Há 3 semanas, foram divulgado os novos dados de desmatamento na Mata Atlântica: 23,9 mil hectares de floresta foram perdidos, um aumento de 9% comparado com o período anterior (2011 e 2012), quando foram registrados 21,9 mil hectares de desmate. Os dados são da 9ª edição do Atlas de Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, feito pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
 
Micrurus Apostoleps 012-1 O nome potyguara homenageia os índios Potiguares que habitavam em grande número a região onde a serpente foi descoberta. Foto: Claudio Sampaio/Divulgação.



domingo, 27 de abril de 2014

UFRN coordena pesquisas sobre fungos em estudo no semiárido brasileiro

 Divulgado em: 23/04/2014 

Iuri BaseiaUma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com universidades federais de cinco estados nordestinos, está tentando aproximar das pessoas comuns o misterioso e ainda desconhecido mundo dos fungos. O Programa de Pesquisa em Biodiversidade do Semiárido (PPBio Semiárido), criado em 2004, tem como objetivo “dissecar” todas as características deste clima no país, e depois transmitir as novas descobertas e conhecimentos à sociedade brasileira. Inclusive as que dizem respeito aos bolores, cogumelos e afins.

Como o Brasil é o país de maior biodiversidade do planeta, era de se esperar que tivéssemos grandes coleções botânicas e zoológicas. Por motivos diversos, no entanto, essa correlação não existe. Mas a manutenção, ampliação e informatização dos acervos biológicos são indispensáveis para a disponibilização on-line dos dados sobre a biodiversidade, e é justamente isso que faz o PPBio. Agora não é mais preciso recorrer a sites de busca ou livros de Ciências e Biologia para conhecer e estudar os fungos, por exemplo: 1.461 espécies já foram cadastradas no banco de dados do programa. E os resultados de todas as expedições podem ser vistos no endereço www.uefs.br/ppbio.

Um dos coordenadores do projeto é o paulista Iuri Goulart Baseia, 45 anos, professor do Centro de Biociências da UFRN. Mestre em Biologia dos Fungos e doutor em Botânica, é ele o responsável por comandar pesquisadores de sete campus do Nordeste nas expedições em busca de fungos das mais variadas espécies pela Caatinga da região. “As pessoas costumam pensar que o Semiárido é pobre e não possui variedade de espécies animais, vegetais e de fungos. Mas elas estão enganadas, e o PPBio prova justamente isso”, afirmou.

Estudos do programa estimam que só nesse bioma brasileiro existam mais de 20 mil espécies diferentes. Além da equipe de Fungos, capitaneada por Baseia, ainda fazem parte do projeto as de Vertebrados, Invertebrados e Plantas. O processo de pesquisa é realizado por meio de viagens em seis áreas definidas como de “extrema importância biológica”, e espalhadas pelos estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí e Bahia, além do Rio Grande do Norte, é claro. “Fazemos cerca de seis expedições por ano, com uma média de sete dias em cada uma delas. Coletamos amostras e depois as trazemos para analisar aqui na universidade”, explica o professor.

Mas tudo isso tem um custo: cerca de R$ 10 mil por expedição. “É um pouco caro realizar essas pesquisas, porque elas envolvem bastante gente. E como somos financiados pelo poder público, é preciso empregar bem essa verba e fazer com que ela renda. Mas as descobertas são muito satisfatórias, e compensam o que foi investido”, diz Baseia.

Tomando por base os resultados da participação da UFRN no PPBio, percebe-se que cada real empregado no projeto é mesmo muito bem utilizado. Um dos “frutos” foi a colaboração no livro Guia dos Fungos Comuns do Semiárido Brasileiro. Com linguagem técnica e edição bilíngue, a publicação é destinada a estudantes e biólogos. Mas também são produzidas cartilhas explicativas, com linguajar mais acessível, para a distribuição em escolas públicas das cidades onde o programa realiza suas pesquisas e coletas.

Segundo Iuri, outro livro está sendo produzido por sua equipe, e deve ser lançado até o próximo mês de julho. “Estamos trabalhando nisso e temos o material praticamente pronto. Essas publicações são uma forma que temos de devolver à população o que foi investido no financiamento das nossas pesquisas, através do pagamento de impostos”, comentou.

Outra área muito importante no estudo dos fungos é a indústria farmacêutica. Quando os pesquisadores percebem que uma espécie tem potencial e ocorre em capacidade satisfatória para ser explorada, coletam uma amostra e a levam até o Departamento de Bioquímica da UFRN. As experiências feitas lá revelam se as substâncias presentes em determinado fungo têm ou não potencial farmacológico. Iuri Baseia, porém, lembra que esse não é o foco das pesquisas do PPBio Semiárido. “É claro que um remédio pode ser desenvolvido a partir de um dos nossos fungos. E seria ótimo se isso acontecesse. Mas é sempre bom ressaltar que o nosso objetivo é outro. Queremos, antes de qualquer outra coisa, conhecer cada vez mais o Semiárido”, destacou.

Programa tem abrangência nacional 
O Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) foi criado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em 2004, como parte do Plano Plurianual do Governo Federal. De abrangência nacional, o projeto tem como objetivo central articular as competências regionais e nacional para que o conhecimento da biodiversidade brasileira seja ampliado e disseminado de forma planejada e coordenada. O programa está estruturado em três componentes principais: inventários, coleções e temáticos, e possui diversos núcleos regionais e projetos parceiros pelo país.

O PPBio iniciou suas atividades na região amazônica. Posteriormente, foi expandido para o Semiárido, com a colaboração da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia. Em 2010, a Mata Atlântica também foi abrangida pelo PPBio, através de um projeto piloto coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, em parceria com o Jardim Botânico e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Por meio de ações da rede ComCerrado, o programa também passou a englobar, recentemente, o bioma Cerrado.

Perfil  

Iuri Goulart Baseia

Nascido em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Iuri Goulart Baseia veio para o Nordeste ainda criança, aos 10 anos. O pai, físico, havia passado em um concurso para professor da Universidade Federal da Paraíba, e mudou-se com toda a família para João Pessoa. “Meu coração está aqui. Me considero muito mais nordestino”, garante.

Ele viveu na capital paraibana até se formar em Ciências Biológicas pela UFPB. Depois foi para o Recife, onde se tornou mestre em Biologia de Fungos na federal de Pernambuco. O doutorado, em Botânica, foi feito na USP, em São Paulo.

Iuri ainda voltou ao Recife e passou lá mais dois anos, até ser aprovado no concurso da UFRN, onde começou a lecionar em 2004. “Este mês eu completo 10 anos aqui na universidade. Já fui chefe do Departamento de Botânica, Ecologia e Zoologia, entre outros cargos. Mas acredito que minha maior alegria na instituição foi o Programa de Pós-Graduação em Sistemática e Evolução, que hoje já forma mestres e doutores. Antes isso era impossível em Natal”, falou.

Baseia também atua como coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sistemática e Evolução e curador da Coleção de Fungos do Herbário UFRN. Ele ainda é bolsista de produtividade CNPq desde 2006 e possui experiência em botânica criptogâmica, com ênfase em biologia de fungos.

Números
  • 2004 foi o ano da criação do Programa de Pesquisa em Biodiversidade pelo governo Federal
  • 5 são os estados do Nordeste envolvidos no PPBio Semiárido: Rio Grande do Norte, Pernambuco, Sergipe, Paraíba e Bahia
  • 6 é o número de expedições realizadas anualmente pelos pesquisadores do programa.
  • 1.461 é o número de espécies de fungos já cadastradas no banco de dados do PPBio. 
  • 20.000 é o número estimado de espécies animais, vegetais e de fungos existentes no Semiárido brasileiro.
  • 10.000 reais é o custo médio de cada expedição realizada pelo PPBio no sertão nordestino.

Fonte: Novo Jornal.

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